Um entrelaçado drama de suspense

Um entrelaçado drama de suspense, focado em um evento fatídico que une nove amigos em um ano novo.

Com modo ousado em conduzir a narrativa, Lucy Foley teve mérito em desenvolver uma espécie de blocos de capítulos inter-relacionados, mostrando os fatos antes e após o evento fatídico, no qual um dos amigos morre e ficamos quase até o fim do livro para saber quem foi a vítima.

“Esse é o problema, sabe. Algumas pessoas, submetidas a determinada pressão, fora dos ambientes aos quais estão habituadas e nos quais se sentem confortáveis, não precisam de muito incentivo para se transformar em monstros.”

Por meio da narração em primeira pessoa de Heather, a recepcionista dos chalés de uma localidade isolada na Escócia, ganhamos a perspectiva dela sobre o corpo encontrado no dia 02 de janeiro de 2019. A percepção do que ocorre dias antes da morte de um dos hóspedes, a partir de 30 de dezembro de 2018, é alternada entre narrações, também em primeira pessoa, das amigas Miranda, Katie e Emma, além da visão, desta vez mostrada em terceira pessoa, de Doug, o guarda-caça da localidade. Por meio dos cinco personagens, a autora nos insere em fluxos de pensamentos, permitindo-nos conhecer a vida de cada um deles e dos outros amigos reunidos.

Essas doses homeopáticas de informações reduzem o ritmo da leitura, o que poderia ser visto como um lado negativo da narrativa (e que pelo pouco que já tinha lido sobre a obra passou essa impressão a alguns leitores). O entrelaçamento de detalhes aparentemente irrelevantes revela a intenção e a necessidade dessa construção. Com características mais de drama e de suspense psicológico do que as de um thriller eletrizante ou de um slasher com mortes em série, “A última festa” aposta, com sucesso a meu ver, no risco calculado de trabalhar com personagens mais odiosos que carismáticos e, ainda assim, instigar o interesse no que causou o evento trágico e na identidade de quem morreu na noite de réveillon.

“Talvez essa impressão pareça mais forte do que é porque estou vendo as coisas em retrospecto. Imagino que provavelmente haja tensões na maioria dos grupos de amigos. Mas eu tinha a sensação de que eles não pareciam tão confortáveis juntos. O que era estranho, porque me disseram no começo que eram amigos havia muitos anos. Só que velhos amigos são assim, não é? Às vezes nem se dão conta de que não têm mais nada em comum. Que talvez nem se gostem mais.”

No desenrolar das 378 páginas, percebemos que nem todos são tão amigos como deveriam, que guardam segredos nocivos uns dos outros e insistem em forçar relacionamentos que não são mais os mesmos. Apesar disso, mais do que qualquer outra coisa, A última festa (cujo título em português é uma tradução distorcida de The hunting party, algo como A festa da caça) é uma trama focada em um evento, que já aconteceu e não sabemos como, por que e com que aconteceu. Nesse quesito, a originalidade da narrativa e a substituição do tradicional quem matou? pelo quem morreu?, garantem uma leitura, que apesar de fugir a algumas regras narrativas, podem conquistar muitas pessoas, como essa história fez comigo.

Livro: A última festa

Autora: Lucy Foley

E-book: 378 páginas

Editora: Intrínseca

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